Santo Estanislau de Jesus e Maria Papczyński
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CARTA CIRCULAR POR OCASIÃO DA CANONIZAÇÃO
DO PADRE ESTANISLAU DE JESUS E MARIA PAPCZYNSKI
FUNDADOR DA NOSSA CONGREGAÇÃO


Roma, 17 de setembro de 2016.
Prot. n. 160/2016

Caros Coirmãos,

No da 5 de junho do ano corrente vivenciamos a canonização do Padre Estanislau Papczynski, Fundador da nossa comunidade religiosa. Muitos de nós participaram desse inesquecível e excepcional acontecimento, quando o Santo Padre Francisco o proclamou santo, e outros de nós, embora não pudessem participar fisicamente da canonização em Roma, estiveram espiritualmente unidos ou acompanharam o transcurso da canonização pelos meios de comunicação. Deus nos proporcionou essa graça extraordinária, aguardada por gerações de nossos coirmãos e pela qual rezaram gerações dos filhos espirituais do Padre Estanislau e dos seus devotos leigos. Continuamos a nos manter num clima solene, e em todas as províncias e vicariatos gerais promovemos solenidades de ação de graças. Queremos dessa forma não somente expressar a nossa gratidão a Deus, mas também de certa forma prolongar o tempo de graça que nos foi proporcionado, bem como fortalecer e aprofundar a reflexão sobre esse especial acontecimento. Tenho a esperança de que esta carta nos ajudará na autorreflexão que, apoiada pela graça divina, renovará o nosso carisma, apoiará o nosso trabalho apostólico e despertará para uma vida mais santa, cuja imagem vimos na vida do nosso Santo Padre Estanislau e que ultimamente nos tem sido apresentada em sua pessoa pela Igreja, através do ato da canonização. Vale a pena também de imediato acrescentar que o titulo oficial de canonização do Padre Estanislau é “presbítero, fundador da Congregação dos Padres Marianos”.

Canonização − dom da Divina Misericórdia

A compreensão do significado do dom da canonização do Padre Estanislau exige uma recordação dos fatos históricos. Cristo, como Deus Encarnado, é o Senhor da história e atua na história tanto de pessoas particulares como de coletividades inteiras, inclusive da nossa Congregação. Basta mencionar que o milagre que contribuiu para a beatificação do Padre Fundador realizou-se exatamente no tricentésimo aniversário da sua morte, e a canonização ocorreu no Ano da Misericórdia.

Apesar do fato de que o Santo Padre Fundador faleceu com fama de santidade, ações concretas tendentes à abertura do seu processo de canonização foram iniciadas bastante tarde, porque somente 50 anos após a sua morte. A Congregação era pobre, não dispunha de meios nem de pessoas adequadas, e na Polônia havia guerras e as epidemias com elas relacionadas. Foi somente o Servo de Deus Pe. Casimiro Wyszynski que deu início aos preparativos para o início do processo, convencido de que “isso agrada muito a Deus” e de que por essa razão “Deus nos abençoa”. Formalmente, na etapa diocesana o processo foi instaurado em 1767 e durou menos de três anos. Em 1770 a documentação foi enviada à Santa Sé e teve início a fase romana do processo, que preliminarmente durou cinco anos. Logo no início (1772) surgiu a necessidade de esclarecer algumas restrições interpostas pelo Promotor da Fé, e a resposta apresentada três anos depois mostrou-se insuficiente. Com o tempo verificou-se que a Congregação não tinha a possibilidade de continuar o processo, e logo depois iniciou-se o sombrio período da história da nossa Congregação devido à perseguição da Igreja na Europa: primeiramente os Marianos foram afastados da Procuradoria Geral em Roma (1798), depois todos os seus conventos foram fechados em Portugal (1834) e a seguir a cassação imperial russa (1864) na área da Polônia levou ao declínio toda a Congregação. Em razão disso, de 1775 a 1952 o processo permaneceu interrompido. Pouco tempo depois da renovação da Congregação, já durante o Capítulo Geral de 1923 em Gdansk, sob a presidência do Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz, foram tomadas decisões tendentes ao reinício do processo do Padre Fundador, e por isso foram aprovados dois decretos (números 34 e 35). O primeiro, para renovar o túmulo do Padre Estanislau; o segundo, para na perspectiva da beatificação coletar a documentação a respeito do heroísmo das suas virtudes. Legalmente, no entanto, o processo só foi reinstaurado após o término da Segunda Guerra Mundial, isto é, em 1952. Foi nomeado então o postulador geral da Congregação. A partir de então teve início o período de trabalhos de pesquisa mais intensivos e foram encontradas novas fontes históricas úteis ao processo. Elas foram submetidas a uma análise científica, o que serviu ao esclarecimento de todas as dúvidas relacionadas com alguns aspectos da biografia do Padre Fundador. Quarenta anos depois (1992) foi promulgado o decreto sobre o heroísmo das virtudes e finalmente, em 2007, alegramo-nos com a beatificação do nosso Padre Fundador.

O processo de canonização do Padre Fundador durou muito tempo e passou por difíceis provas. Havia um tempo em que parecia que a canonização jamais se concretizaria. Pode-se até dizer que por diversas razões alguns filhos espirituais do S. Estanislau de Jesus Maria Papczynski duvidavam da sua santidade ou não estavam convencidos de que ele era um adequado candidato aos altares. O conhecimento dos seus escritos e da sua herança carismática igualmente se encontravam distantes dos ideais da vida religiosa descritos nos documentos da Igreja e que falavam do significado dos fundadores para os institutos religiosos. Essa história do processo tem, no entanto, a sua lógica histórico-salvífica e é como que uma cópia do destino da Congregação por ele fundada e como que um reflexo da sua própria vida. Neste ponto é preciso observar que igualmente os dois milagres inscrevem-se perfeitamente na lógica da passagem da morte à vida, do desespero ao poder da esperança e da graça, que se manifesta de forma especialmente clara diante da morte, da fraqueza e da desesperança humana. Todas essas histórias: da Congregação, do processo de canonização e dos milagres, tanto para a beatificação como para a canonização, manifestam aquilo que o próprio S. Padre Estanislau enfatizou em sua experiência de fé, relacionada com a fundação da Congregação: “Apesar das inúmeras dificuldades que se apresentam como obstáculos, a bondade e a sabedoria divina realiza o que pretende, mesmo quando os meios, segundo o julgamento humano, são para isso imprestáveis. Com efeito, não existe nada de impossível para o Todo-Poderoso. Verificou-se isso da forma mais clara em mim [...]. Mas o próprio Deus, o Deus (a quem sejam dadas eterna, infinita glória e ação de graças), da mesma forma que para essa obra providencialmente, isto é, com amor, misericordiosamente, sabiamente, milagrosamente estimulou, Ele mesmo [também] a realizou e realiza pelos séculos eternos” (Fundatio Domus Recollectionis).

Deus realiza as Suas obras no tempo oportuno. Chegou o tempo do Santo Padre Estanislau. Somos gratos ao Pai da história por ter querido conceder-nos essa graça, por tanto tempo esperada. Nós a aceitamos como um dom da misericórdia divina − guardado providencialmente para os nossos tempos e especialmente necessário para nós na celebração do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Por esse dom agradecemos juntamente com Maria, Mãe de Misericórdia, à qual sempre com afeto filial esteve devotado o nosso santo Pai e em honra de cuja Imaculada Conceição fundou a nossa Congregação.

Descoberta do Padre Fundador

Embora seja compreensível que a canonização do fundador de qualquer instituto religioso é a elevação à glória dos altares somente dele, e não da comunidade que fundou, esse fato tem um claro e inevitável reflexo sobre o instituto. Trata-se, com efeito, da aprovação da santidade que pela sua vida demonstrou o fundador e que deixou aos seus filhos espirituais e aos seus discípulos. Essa santidade encerra ao mesmo tempo certa doutrina. Ainda que ela não seja descrita teologicamente e embora sempre tenha uma face cristã e católica em todas as suas dimensões, possui seu formato próprio, seu colorido original. Na tradição da história da espiritualidade ela é definida com o nome de escola de espiritualidade. Sem dúvida, a ratificação dessa escola é a canonização do seu criador. Por graça divina alcançamos o momento em que o sucessor de São Pedro proclamou oficialmente, com o envolvimento do Magistério da Igreja, que o nosso Padre Fundador é santo e que o exemplo de sua vida é um modelo não somente para nós, mas para toda a Igreja; que ele está presente conosco no mistério da comunhão dos santos e muitos fiéis têm a experiência da sua força intercessora. Graças a esse tipo de presença sua hoje, e em consequência do nosso engajamento pessoal na leitura dos seus escritos e no conhecimento do seu testemunho, novamente resplandeceu a paternidade de S. Estanislau de Jesus e Maria Papczynski na Congregação por ele fundada. Isso tem um profundo significado na perspectiva das mudanças pelas quais em razão dos condicionamentos históricos tem passado a nossa Congregação, especialmente do renascimento promovido há mais de cem anos pelo Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz. À Congregação condenada à morte, na qual havia permanecido vivo o último religioso, o Pe. Vicente Sekowski, que preparava “o caixão para si mesmo e para a Congregação” (da carta de V. Sekowski a J. Matulewicz), foi concedida uma graça extraordinária: a canonização do Fundador é em certo sentido também a confirmação desse caminho de santidade que ele traçou para o Instituto que tinha fundado.

A Igreja já aprovou não somente a versão subsequente das Constituições da Congregação como programa de vida, mas abonou o estilo de sua vida encerrado no testemunho do Fundador. Também nesse sentido torna-se perceptível na Congregação certa esperança de que a canonização não apenas provocará a animação do carisma da nossa comunidade religiosa, mas também estimulará a nós, os filhos espirituais de S. Estanislau, a uma resposta mais fiel e generosa à graça da vocação. E o modelo da sua total entrega a Cristo e à Igreja, a exemplo da Imaculada Mãe do Senhor, se tornará tão convincente que atrairá novas gerações de jovens a uma vida de santidade na nossa comunidade, com o nosso carisma.

A graça da canonização conscientizou-nos mais uma vez de quão importantes são as nossas raízes, de quão profundos são os nossos vínculos com o Santo Pai Fundador, de qual deve ser − ou deveria ser − o ponto de referência e o fundamento da nossa reflexão. Necessitamos da continuidade e do aprofundamento teológico da reflexão sobre o carisma fundador do S. Padre Estanislau. Essa reflexão se iniciou com bastante intensidade tanto após a beatificação como após as comemorações do centenário da renovação da Congregação, realizada pelo Beato Jorge. Precisamos ir mais longe e promover uma reflexão a respeito do que faz parte da essência do carisma e da identidade da Congregação e do que é mutável, temporário, relacionado com a sensibilidade de um determinado período da história, com a necessidade de adaptação aos condicionamentos, tanto eclesiásticos como sociais, ou ainda relacionados com determinada cultura ou mentalidade. Nesse sentido, parecem inserir-se providencialmente as decisões do último Capítulo Geral, que impôs à Administração Geral um decreto para instituir uma “Comissão para assuntos de Constituições e Diretório, cujo objetivo será a realização de uma revisão e a proposição de eventuais mudanças na redação das Constituições e do Diretório da Congregação atualmente vigentes dos Padres Marianos”. Essa Comissão tem a obrigação de apresentar os resultados do seu trabalho no próximo Capítulo Geral. Para a fundamentação desse decreto, na opinião do Capítulo, serviram “os eventos da beatificação do Padre Fundador em 2007 e as comemorações do jubileu do centenário da Renovação e da Reforma da nossa Congregação em 2009”. Na opinião do Capítulo, esses acontecimentos despertaram entre muitos Coirmãos “a necessidade de uma nova definição do carisma mariano e da sua abordagem em forma legal, isto é, nas Constituições” (dos documentos do Capítulo Geral 2011). A Comissão está encerrando o seu trabalho, no entanto é o próximo Capítulo Geral que empreenderá a responsável tarefa do discernimento e da apropriada abordagem do nosso carisma na forma legal e do seu registro nos nossos Estatutos. A canonização do nosso Padre Fundador nos evidencia mais claramente ainda como é importante e necessária essa tarefa.

Atualidade e vitalidade do carisma da nossa Congregação

Uma parte da reflexão sobre o carisma da Congregação já se manifestou nas entrevistas, nos livros ou artigos teológicos. Outras formas de reflexão vão sendo promovidas com o passar do tempo, na dependência das necessidades. Começamos a ter as nossas próprias concepções do significado da canonização, da santidade do Padre Estanislau, dos elementos essenciais do carisma e da sua influência sobre a nossa espiritualidade e o nosso apostolado. Trata-se não apenas de frutos muito positivos da graça da canonização, mas sobretudo isso pode ser um bom fermento para a criativa busca de adequadas abordagens da natureza da nossa comunidade religiosa; daquilo que é mais permanente e imutável e daquilo que é temporário, e portanto passageiro. Além disso, ao promovermos uma reflexão sobre o nosso carisma, buscamos formas de sua implementação na vida e nas nossas obras apostólicas. Em certo sentido, foram somente a beatificação e a canonização do nosso Padre Fundador que fizeram com que nos déssemos conta da extraordinária atualidade não somente do seu carisma pessoal, mas sobretudo da atratividade do carisma de fundador que ele deixou a nós − seus filhos espirituais. Trata-se de um dom que é para nós um presente e uma riqueza, mas também uma grande tarefa a realizar.

No passado, geralmente quando falávamos do espírito da Congregação e da sua missão apresentávamos três elementos: a propagação do culto da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, a ajuda aos falecidos e a pastoral amplamente interpretada. Essa visão remonta aos primórdios da Congregação e à descrição dos objetivos específicos encerrados na Norma vitae do Santo Padre Estanislau. Sabemos também que, mesmo que as nossas Constituições do último período histórico não abordassem esses três elementos num artigo ou em artigos mutuamente relacionados, na nossa consciência e em outros importantes documentos e textos não apenas os relacionávamos conosco, mas também buscávamos a regra resultante.

O conhecimento das fontes históricas nos faz saber que a propagação do culto da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria tinha para o nosso Padre Fundador um significado primordial e dizia respeito na mesma medida tanto ao nome da Congregação como ao objetivo específico da sua comunidade. O Santo Padre Estanislau fundamenta essa sua postura somente de uma forma, a saber, pela “visão impressa por Deus em sua alma” (Fundatio Domus Recollectionis). Levado por essa visão, afastou-se da “Congregação das Escolas Pias para ele mais cara que a vida” e subordinou tudo à sua experiência mística; fez também um juramento de sangue, isto é, de defender o privilégio da Imaculada Conceição da Mãe do Senhor até à custa da própria vida, caso isso fosse necessário.

Logo depois surge o outro traço característico da Congregação: a ajuda aos falecidos que sofrem no purgatório. Também aqui, com base em fontes históricas, encontramos singulares experiências espirituais do Santo Padre Estanislau, especialmente aquelas descritas por testemunhas. O próprio Padre Fundador, no entanto, não fala delas, diferentemente do que ocorre no caso da “visão da sua Congregação da Imaculada Conceição”. Em Norma vitae, o suffragium defunctorum é por ele abordado como o segundo objetivo, sem uma fundamentação especial. Podemos apenas supor isso justamente do contexto da ajuda aos falecidos, visto que ela devia ser proporcionada “aos submetidos às penas do purgatório, especialmente aos soldados e aos falecidos em consequência da peste”. Trata-se então aqui daqueles que se afastaram deste mundo despreparados para o encontro com o Senhor e não levaram uma vida piedosa. Eles necessitam de preparação, de purificação para que possam alegrar-se plenamente com a visão do Senhor.

A terceira dimensão, que em Norma vitae é abordada como “humilde ajuda aos párocos nos trabalhos eclesiásticos”, traz em si o caráter apostólico da Congregação. Esse caráter encontrou a sua expressão apropriada não somente nos documentos que aprovaram a nossa comunidade como um instituto do clero regular e na variada atividade apostólica da nossa Congregação, mas sobretudo no zelo apostólico do nosso Santo Pai: na sua proclamação da Palavra Divina, nos seus numerosos escritos de conteúdo teológico-espiritual, nas inúmeras confissões, na direção espiritual tanto de pessoas individuais como de conventos, na organização de romarias; no seu engajamento nas obras sociais, aliado ao amor à pátria temporal, no apoio aos pobres e nas obras de caridade. A essa postura o Padre Fundador acrescentou também um traço muito pessoal e transmitido à sua comunidade, isto é, o apostolado da sobriedade, compreendido como abstinência da aguardente (crematum), um estimulante proibido aos seus filhos espirituais (Norma vitae, Testamentum II). Nas bases justamente desse tipo de teoria e ao mesmo tempo atividade pastoral do Santo Padre Estanislau e do seu desvelo pela fundação de uma comunidade apostólica religiosa encontrava-se a profunda convicção de que essa forma de vida dedicada a Deus é plenamente evangélica, porque é própria de Cristo e dos Apóstolos.

A propagação do culto da Imaculada Conceição da Mãe do Senhor, a ajuda aos falecidos que se afastaram deste mundo despreparados para o encontro com Cristo e a humilde ajuda aos párocos nos trabalhos eclesiásticos, além da experiência de fé do nosso Santo Fundador, têm também a sua fundamentação nos sinais do tempo da Igreja e do mundo daquela época. A Imaculada Conceição de Nossa Senhora encontrava sempre a oposição de muitos membros da Igreja, embora esse mistério revele a insondável misericórdia de Deus para com o gênero humano. O Santo Padre Fundador antecipou-se nesse ponto à corrente principal da Igreja em quase duzentos anos. Aconteceu a mesma coisa com a oração pelos falecidos: o contexto histórico-social do século XVII, com a grande frequência de guerras e de epidemias com elas relacionadas, que provocavam a morte de multidões de inocentes e de pessoas despreparadas, exigia uma resposta cristã; em algumas regiões da Polônia chegava a morrer até mais de 50% da população. Essa mesma situação levou a uma decadência religiosa: faltavam padres e não havia assistência pastoral, principalmente em meio à população pobre a aldeã. Faz parte da sabedoria dos santos reconhecer os sinais do tempo e dar atenção à ação do Espírito Santo. O Padre Fundador era sensível à ação do Espírito Santo, sabia interpretar as Suas inspirações e encontrar a resposta para as necessidades da Igreja e do homem. Essa capacidade ele deixou também a nós, em seu carisma.

No decorrer da história da Congregação, os três elementos do nosso patrimônio acima mencionados têm sido realizados de diversas formas e foram submetidos a diversas interpretações, e até mesmo a negligências. É preciso perceber aqui algumas personalidades que se tornaram pontos de referência. Historicamente, o primeiro é o Servo de Deus Pe. Casimiro Wyszynski, com o seu enorme desvelo e fidelidade ao Padre Fundador e ao patrimônio da Congregação. O segundo, que salvou a nossa Congregação da morte e a renovou, é o Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz; pela sua obra de renovação, ele deixou à Congregação a sua marca: um novo dinamismo e uma nova interpretação, adaptada aos tempos em que viveu. As suas Constituições continuam a ser o nosso ponto de referência, e o seu ideal do apostolado universal aliado ao engajamento social e a ida aos lugares onde há maior necessidade tornaram-se um conteúdo sempre vivo e atual, inclusive para os dias de hoje. Um belíssimo fruto e testemunhas de tal postura são os nossos beatos mártires Antônio e Jorge. Eles se encontravam onde realmente havia então a maior necessidade de fé, de assistência pastoral e do testemunho de amor aos irmãos, até a morte. O mesmo testemunho de amor a Cristo e à Igreja até o fim foi dado pelos Servos de Deus Fabiano Abrantowicz, André Cioto e Janis Mendriks nos tempos do desumano comunismo.

Após a beatificação do Padre Fundador em 2007, após as comemorações do centenário da Renovação da Congregação e, finalmente, após a canonização do Padre Estanislau, torna-se para nós cada vez mais perceptível o fato de que Deus nos fala nesses acontecimentos e de que devemos ouvir a Sua voz para bem compreendê-la e responder a ela de acordo com a Sua vontade. Muitos de nós se convenceram de que a Congregação é uma comunidade viva, a caminho, e de que nós temos necessidade de um incessante diálogo com o Espírito Santo a respeito daquele carisma que recebemos em nossos corações. Não podemos ter medo de interpretações novas, sucessivas e nossas do carisma da Congregação, por ser isso também uma tarefa nossa. Não somos apenas objeto das Constituições e do Diretório, mas, como pessoas vivas que trazem o mesmo carisma, devemos procurar formas sempre novas, atuais e adequadas de expressão desse carisma. Sempre fiéis ao nosso patrimônio e de acordo com a tradição mariana; com filial submissão à Igreja.

Na reflexão e na troca de ideias empreendidas nos últimos anos, demo-nos conta de que o mistério da Imaculada Conceição da Mãe do Senhor é a essência do carisma da nossa Congregação e de que dele decorre a natureza e a missão da nossa comunidade. Percebemos que o Santo Padre Estanislau esteve encantado pelo mistério da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. À divulgação desse mistério e à anunciação da santidade da vida de Maria dedicou a Congregação por ele fundada e pela mesma razão, em honra da resplandecente de branco Conceição de Nossa Senhora, vestiu o hábito branco. Com essa missão da Congregação, com o amor a Maria Imaculada e com esse Seu excepcional privilégio ele relacionava as suas mais profundas experiências místicas.

Percebemos igualmente que as expressões seguintes do carisma são como que os dois braços através dos quais por um lado se manifesta o nosso carisma e, por outro, ele se realiza. O mistério da Imaculada Conceição da Virgem Maria revela que o amor de Deus antecede qualquer ação humana, que Deus retira a vida humana das profundezas do Seu amor, que a Sua misericórdia é maior que todo mal e pecado; que a vida humana é um dom e é santa desde a concepção, que toda vida humana é desejada por Deus. O mistério da Imaculada Conceição nos fala também que em última análise “procedemos de Deus”, que Ele é a fonte da vida e que viemos ao mundo envolvidos pela Sua graça e pela Sua Providência. Isso faz com que a vida de todo ser humano assuma uma dignidade especial. Num mundo em que existe a indústria do desprezo da vida humana, onde − numa aberração do liberalismo − a morte de crianças não nascidas se conta entre os direitos humanos, a canonização do Padre Fundador, que aponta para a Imaculada Conceição de Maria, torna-se um apelo para a devolução da dignidade de toda vida humana. A santidade a que é convocado todo ser humano tem o seu destino encerrado no plano criador de Deus, que é a plenitude da vida em Deus, a plenitude da felicidade com Deus e com os semelhantes no Reino do Céu. É por isso que o mistério da Imaculada Conceição de Maria deve conduzir à oração pelos falecidos e ao acompanhamento das pessoas na hora da morte. A concepção e a morte são como que o gancho que prende a vida humana inteira − a temporal e a eterna −, que no propósito de Deus deve ser “santa e sem mácula”. Essa dimensão do carisma da Congregação é atual também hoje: o homem atual quer afastar a morte não somente da sua consciência, mas também do mundo da cultura e da vida social. E, caso isso seja impossível, pelo menos quer banalizá-la, reduzi-la à diversão ou a um slogan. Dessa forma, no entanto, elimina-se algo muito maior: a destinação eterna da vida humana, o fato de que a vida humana é uma peregrinação ao Pai, e de que a morte é uma passagem, uma porta. Hoje o homem não quer ouvir falar da morte e a sufoca, porque não quer ouvir falar daquilo que se encontra além do horizonte assinalado pela morte. A oração pelos falecidos, no entanto, não é apenas um ato de fé na vida eterna em Deus, mas também um ato de caridade que ultrapassa a esfera temporal, alcançando aqueles com os quais já temos apenas um relacionamento de amor em Deus. Edifica-se a comunidade dos santos, que dessa forma prepara também a nós para essa inevitável etapa da nossa passagem à Pátria eterna. Se tivermos a consciência de que ambas as dimensões devem ser realizadas ativamente, de imediato compreenderemos por que a Congregação tem um caráter apostólico: para chegar com essa alegre boa nova sobre a origem e o destino do homem a um número possivelmente maior de pessoas. E essa é uma tarefa que hoje Deus nos confia. A canonização do nosso Padre Fundador é por sua vez um sinal de quanto a Igreja e o mundo necessitam do nosso carisma.

Para a tarefa da resposta à graça da vocação e da abertura ao carisma da nossa comunidade religiosa, que o Espírito Santo nos confiou, entrego todos Vós e a mim mesmo à maternal proteção da Virgem Imaculada, Mãe do Senhor e Mãe nossa, e ao nosso Santo Padre Estanislau e aos nossos beatos Jorge, Renovador da nossa Congregação, e Antônio e Jorge, mártires. Cordialmente abençoo a todos.

Pe. André Pakuła MIC
Superior Geral